Discos Perdidos. Brevemente perto de si!

Nuno Costa Santos, tem 39 anos e vive em Lisboa. Durante as mudanças para um novo apartamento, não consegue encontrar grande parte dos discos da sua adolescência. Ao procurá-los entre telefonemas de amigos e familiares, surge a hipótese de os ter deixado na ilha onde nasceu e onde passou a sua adolescência: São Miguel. Além de colegas de trabalho – já realizei vários conteúdos para as Produções Fictícias, inclusivé a série Melancómico (indicada pela TimeOut, 2 anos consecutivos, como Melhor Série Original Portuguesa) onde o Nuno era o protagonista e argumentista – tornámo-nos também bons amigos. Nessa altura o Nuno partilhou comigo a problemática dos discos e, num jantar decidimos que teríamos de documentar essa demanda da procura dos discos perdidos que, no fundo, não é mais que um resgate da juventude perdida. Tendo como pretexto narrativo o regresso à ilha para ir buscar os discos que por lá deixou e que simbolizam uma série de vivências partilháveis, pretendíamos partilhar uma série de histórias, suas e das pessoas com quem se iria cruzando, de forma a fazer um retrato vivo, diverso e dinâmico do crescimento na ilha de São Miguel e das mudanças – humanas, sociais, tecnológicas – que neste território têm ocorrido nos últimos 20 anos. Tendo como caminho fílmico, a procura desses discos perdidos, e como personagens principais, os amigos da juventude perdida. A música tendo um peso tão grande nas nossas juventudes, foi a inspiração para criar a estética do filme, e a sua identidade. E a cultura musical partilhada por estes amigos era tão forte e singular, que seria o alicerce que seguraria as suas amizades durante os restantes anos. Tentamos também descobrir como, numa ilha isolada no meio do Oceano Atlântico, foi possivel chegar, a música Brit-Pop alternativa dos anos 80. E é esse género musical – que surge com a cultura New Wave – que iria ser um dispositivo essencial para a maneira como iria olhar para esta aventura. Não poderia ser um documentário de testemunhos, fossem eles numa cadeira em modo entrevista, ou mesmo in loco em modo reportagem. A New Wave fazia-se sentir por uma entidade muito própria, muito rebelde, muito contra as regras instituídas, do que é arte ou cultura. Aliada a muita dinâmica, cor, ritmo, vida… Decidi que iríamos filmar este documentário como se fosse uma ficção. O leit motiv já estava lançado. O protagonista era nosso durante 24 horas por dia. E misturaríamos a beleza natural dos Açores, com a música pop muitas vezes de traços épicos, e o grafismo do action painting. Este documentário seria no todo, uma ode à New Wave. Até no seu conteúdo nostálgico, que também era muito próprio das letras desse género musical. Uma aventura e uma procura que é por um lado, física na procura dos discos, e por outro profunda – a procura e as dúvidas existenciais da juventude contra o resto da vida. E por tal, fez-me sentido que por entre os caminhos e pessoas percorridas, surgissem momentos de devaneios e procura. Daí a ideia surgida de introduzir uma voz off (que sugere um “eu” futuro e mais filosófico), e misturar certos momentos ficcionados ou ilustrativos, mas não falsos. A veracidade dos momentos de interação com os amigos e outras pessoas é total no sentido em que não são atores a interpretar um papel nem um guião escrito. Apenas tive a sensibilidade de escolher locais ou situações adequadas – após pré-entrevistas – onde o Nuno pudesse interagir com essas pessoas, possibilitando que esses mesmo locais/situações lançassem uma mensagem pretendida, de maneira a que até o menor aspeto do filme tenha um valor artístico e simbólico. Sempre com a ambição de tornar este filme um cocktail de todas as artes que compunham a cultura New Wave. Tiago P. de Carvalho

 

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